Com o terceiro filme da saga Avatar, o realizador James Cameron traz-nos novamente à pequena lua de Pandora, para concluir o primeiro grande ciclo de uma história que conquista corações e bilheteiras desde 2009.
Em antecipação de ver esta película, decidi rever O Caminho da Água (2022), cuja crítica do nosso caro André Marques, podem encontrar aqui.
Nas palavras de James Cameron este “é obviamente um filme muito diferente… mas diria que é mais parecido com o Titanic, do que com o primeiro Avatar”. Apesar de começar exatamente onde terminou “O Caminho da Água”, a mudança de tom é imediata, palpável e claramente intencional. A beleza exuberante da vida no recife dá lugar a uma atmosfera pesada, onde a pressão pela sobrevivência testa a união da família Sully, com velhos e novos inimigos no horizonte.
Este terceiro capítulo da saga, oferece-nos um mergulho profundo em dinâmicas familiares e conflitos internos que moldam cada personagem, sendo esta teia de relações, construída ao longo de vários filmes e gerações, um verdadeiro testamento à paciência de Cameron, em construir, pacientemente, uma história orgânica.
Neste filme, Cameron conseguiu ir além do ciclo interminável de vingança, entre o ex-humano Jake (Sam Worthington), a sua companheira Na’vi, Neytiri (Zoe Saldaña) e o marinheiro Quaritch (Stephen Lang), ao entrelaçar as narrativas coming-of-age da nova geração. Enquanto Spider (Jack Champion) divide-se entre a família que o acolheu e aquela que nunca teve, Lo’ak (Britain Dalton) luta por construir a sua identidade fora da sombra do seu pai, Jake; já Kiri (Sigourney Weaver) segue uma jornada profundamente espiritual, tentando desvendar os mistérios entre a sua ligação especial com o espírito da natureza de Pandora, Eywa.
Cameron não poupa os nossos corações, oferecendo um leque de pontos de vista e experiências humanas, desde luto, trauma, perda de identidade, até o suicídio, temas pelos quais teve de lutar para incluir na produção do filme. Entre todas as linhas narrativas, a de Kiri foi a que mais me tocou. A personagem enfrenta, com coragem, tudo o que a torna diferente, para proteger a família, num percurso de autodescoberta onde os seus poderes podem custar a própria vida. Apenas a inigualável Sigourney Weaver conseguiria reinventar-se dentro de uma trilogia em três papéis distintos, em que, ironicamente, dois deles são… ALIENS?
Entre todos estes conflitos, Cameron atira-nos uma bola curva: a chegada do clã Mangkwan ou Povo das Cinzas, liderados pela sedutora e mortal Varang (Oona Chaplin). Conhecida pelos seus papéis em séries como Game of Thrones e Black Mirror, a neta da lenda do cinema mudo Charlie Chaplin chega aqui com uma interpretação tudo menos silenciosa.
A meu ver, a introdução destes Na’vi renegados quebra a dicotomia que vimos nos outros filmes da saga, entre os humanos “malvados” e os Na’vi “bondosos”, adicionando uma nova dimensão moral aos filmes, dando mais peso a cada decisão que é tomada, desafiando a família Sully e outros humanos em Pandora a tomarem decisões melhores, embora sempre difíceis. Aqui inverte-se um padrão claro nos dois primeiros filmes: quando os Na’vi perdem o lar, a união surge como força essencial para sobreviver e adaptar — tal como acontece com a família Sully —, e o seu oposto, a corrupção e destruição criada por Varang e o seu clã.
Desta maneira, creio que Cameron está a piscar-nos o olho: através do destino de uma comunidade, em macroescala, sinaliza as escolhas morais e o rumo de desenvolvimento que quer aprofundar em microescala na família Sully. A ideia que sobra é simples: quem escolhe a violência e a destruição dificilmente recupera aquilo que perdeu.
Por último, entre as cinzas, nasce uma “paixão” entre os antagonistas Quaritch e Varang. Do villains deserve a happy ending? Mais uma vez, Cameron recusa-se a reduzir as personagens a papéis unidimensionais, contracenando, neste filme, Quaritch, agora num corpo Na’vi, com uma líder feminina movida por ambição e sede de poder. Juntos são fogo e pólvora.
Este ano, Avatar: Fogo e Cinzas soma duas nomeações aos Óscares de 2026: Melhores Efeitos Visuais e Melhor Figurino. Apesar de não ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme, ao contrário dos dois capítulos anteriores, creio que estas nomeações refletem o ADN da saga. Desde a inovação na captura de performance, onde Cameron é um pioneiro, até ao rigor técnico e artístico, indispensável para dar vida e fazer justiça a um projeto desta escala, Cameron mostra-nos, mais uma vez, a excelência humana no cinema, numa época de inteligência artificial generativa.
Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por Luís Serra Sousa.

Ótima crítica
Concordo com tudo