Tem se ouvido e lido muitas críticas a este filme, mesmo antes de este estrear, pela forma como este, supostamente, “bastardiza” um texto clássico da literatura inglesa. Por meu lado, eu acho que tais críticas são “beside the point”. Se Kubrick provou alguma coisa, é que se pode fazer adaptações de obras literárias que diferem radicalmente do seu material e fazer algo icónico e interessante por si próprio. Gostaria que Emerald Fennell tivesse apresentado algo interessante, mesmo “bastardizando” uma obra icónica, pois não acredito que alguma obra seja intocável. No entanto, o que é aqui apresentado é algo que não poderia cheirar mais a bafio.
O filme começa com grunhidos enquanto os créditos iniciais rolam, dando a ideia que são grunhidos num ato sexual. No entanto, quando a imagem surge no ecrã é um homem a ser enforcado. Com isto, Emerald Fennell apresenta, de forma juvenilmente óbvia, o tema desta história – sensualidade e violência. Sendo que este filme, nos últimos meses, tem sido acompanhado por uma campanha de marketing que o apresentou como “O Monte dos Vendavais mas sexy” era de esperar, pelo menos, alguma sensualidade nesta obra. No entanto, o que se encontra é um jorrar de imagens filmadas com a beleza mais insuportavelmente estéril possível. Em certos momentos este filme não passa de um videoclip para as músicas de Charli XCX, cujo álbum tem o seu interesse musical mas aqui é apenas uma intrusão irritante, e é impossível sentir qualquer sensualidade, sexualidade ou emoção.
Estas imagens sucedem-se umas às outras de uma forma confusa e estonteante não deixando absorver qualquer beleza ou sentimento que possam surgir. O decorrer de O Monte dos Vendavais parece mais uma batalha entre os seus vários elementos do que uma obra coesa. A fotografia, a cenografia, a banda sonora e a montagem estão em constante interferência, como se cada um destes elementos estivesse, separadamente, a gritar ao espectador: “não somos tão arrojados e sensuais???” O resultado é uma sobre-estimulação anestésica que retira qualquer interesse de qualquer um dos seus elementos e de tanto a obra original como de qualquer tentativa de a “bastardizar”.
A única coisa que pode ser considerada remotamente interessante é a forma como o argumento apresenta uma estrutura de fanfic, pela forma como as cenas desenrolam e os personagens interagem entre si e falam. No entanto, enquanto fanfics são capazes de incorporar um erotismo cativante, tal não é encontrado aqui. Raramente sexo depravado pareceu tão desinteressante.
O Monte dos Vendavais de Emerald Fennell, no fundo, não é mais do que um cemitério cinematográfico do potencial sensual e erótico do cinema, o absoluto contrário de um cinema arrojado e provocador. Nem dois atores convencionalmente atraentes como Margot Robbie e Jacob Elordi conseguem conjurar alguma química neste marasmo audiovisual. Apenas Hong Chau, atriz criminalmente sub-utilizada por Hollywood, apresenta uma interpretação minimamente cativante. Deste modo, esta obra, que tem pretensões de ser uma experiência provocadora, não é mais do que o lugar onde a sensualidade vem morrer.
Classificação: 1 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.
