Crítica: Projecto Global / Três estrelas por Jasmim Bettencourt

Projecto Global – Um olhar sobre os espectros do pós-revolução

3 estrelas Cinema Português Críticas

O povo português vive numa constante melancolia e nostalgia do seu passado, e a forma como se relaciona com a revolução que fundou a nossa democracia não foge a esta regra. A revolução é a fonte de uma miriade de mitos que refletem convulsões sociais mal resolvidas que surgiram na sua sequência. É uma revolução que não se concluiu, é uma revolução traída, é uma revolução morta, e, mais recentemente, tem surgido também surgido com cada vez mais força a ideia de uma revolução terrível e maligna. Independentemente de como cada quadrante político a interpreta, esta revolução tornou-se num mito que assombra a marcha fúnebre que é o sistema democrático deambulante que habitamos. Uma destas assombrações, que é produto exatamente desta marcha fúnebre mitologizante, é as FP-25, que surgem de um ímpeto de um grupo de pessoas insatisfeitas já nos primeiros anos de pós-revolução com o caminho que esta tomou. Mergulhar num tema tão fracturante é certamente uma tarefa de coragem, algo que Ivo Ferreira apresenta neste filme. Através do uso do thriller, somos convidados a mergulhar no mundo psicológico de um dos fantasmas de um país que vive em luto da sua história e a olhar para as cicatrizes do nosso frágil sistema político.

Entramos neste mundo psicológico através da história de um grupo de militantes desta organização. Estas personagens criadas por Ivo Ferreira são verdadeiros espectros de um passado mal resolvido que se manifestam no grande ecrã. O foco está na sua psicologia e não tanto na política, o que torna a forma deste filme algo confusa, apesar de cativante. Enquanto que, por um lado, estes personagens apresentam uma enorme profundidade que nos permite confrontar-nos com a atmosfera vivida em Portugal no início dos anos 80, o conteúdo político deste filme parece algo esvaziado. Talvez isto seja uma forma de permitir ao espectador preencher esse vazio com a sua própria interpretação política, mas a ambiguidade política e a falta de uma contextualização histórica mais forte tornam esta tarefa mais difícil e pouca frutífera. Apesar disso, as personagens cativam-nos para continuar com elas e tentar entendê-las.

Para além disso, Ivo Ferreira apresenta um domínio sobre o género do filme, o thriller, usando-o para sua vantagem em construir um filme que captura a nossa atenção e puxa para o seu mundo. Isto é ainda mais sublinhado pela atenção ao detalhe da direção de arte, no guarda-roupa e na caracterização dos atores, que verdadeiramente traz vida ao passado. No entanto, o verdadeiro poder deste filme está nas suas interpretações, com especial destaque a Jani Zhao, que captura a atenção em todas as cenas em que entra e torna a sua personagem no aspeto mais fascinante do filme. É difícil de pensar noutra coisa após o corte final do filme.

Apesar das suas enormes qualidades técnicas e a capacidade para a materialização do psicológico de Ivo Ferreira, este filme sofre de uma confusão constante, seja pela forma rasa com que trata o seu conteúdo político, restringindo-se apenas ao papaguear de palavras de ordem básicas, como ao próprio desenrolar algo nebuloso da história, com um ritmo errático. Sendo um filme que tenta lidar com o legado da revolução e de grupos como as FP-25, deixa-nos à procura de algo mais no seu contexto histórico, especialmente para pessoas que não o viveram. Para um filme sobre uma organização política tão controversa, é um filme estranhamente vazio do político e, portanto, não tão forte e impactante como poderia ser.

Projecto Global é um filme que apresenta uma grande mestria de todas as pessoas envolvidas na sua criação, apresentando interpretações inesquecíveis e das cenas de ação mais entusiasmantes e mais bem conseguidas na história do cinema português, mas que se perde na superficialidade da análise política e histórica que oferece ao espectador. Apesar disso, convoca os fantasmas da história recente de Portugal, permitindo a que seja um possível ponto de partida para que se possa olhar de forma honesta para este passado e para o nosso presente.

Classificação: 3 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *