Entre 15 e 26 de Março, o Festival MONSTRA animou a cidade de Lisboa com longas e curtas de animação, exposições, masterclasses e workshops. Estiveram várias figuras do cinema de animação nacional e internacional presentes no festival. Uma delas foi Bruno Caetano, produtor do filme Ice Merchants, também ele próprio realizador e animador, e fundador da COLA, uma cooperativa que está a mudar o meio do cinema de animação em Portugal. O Cinema em Portugal esteve presente na MONSTRA e teve a oportunidade de entrevistar este recente nomeado aos Óscares.
Esta entrevista foi conduzida por Jasmim Bettencourt.
Desde muito cedo que o cinema de animação te interessou. Porquê?
Eu sempre achei que a animação tem uma coisa que difere muito da imagem real, que é a possibilidade de criar tudo de raíz. Também é possível fazer em imagem real, mas em animação é feito com mais tempo, mais preocupação, com mais pormenores. E isso é algo que me interessa: a atenção ao pormenor. No caso específico do stop-motion, que é aquilo que eu gosto mais de fazer e consigo fazer, porque eu não sou animador de animação tradicional, são esses lados minuciosos, esse tempo que uma pessoa acaba por dedicar ao projeto, fazendo o projeto algo mais extenso. Eu gosto dessa viagem. Eu já tive a oportunidade de trabalhar em projetos de imagem real, que tiveram algum tempo de pré-produção, mas depois a produção é uma coisa bastante rápida. É interessante também, mas a mim já não me diz tanto.
E porquê o stop-motion?
Eu lembro-me de ser pequeno e de estar muito curioso para saber como certas coisas eram feitas. Eu cresci a ver algumas animações mais experimentais que o Vasco Granja partilhava connosco, mas eu fiquei muito fascinado pelo stop-motion como efeitos práticos de cinema. Eu cresci a ver o RoboCop, o Star Wars, tudo o que foi feito pelo Ray Harryhausen, como o Jason and the Argonauts, o Clash of the Titans, depois mais tarde tudo o que foi feito pelo Phil Tippett. Tudo isto despertou-me o interesse em, pelo menos, tentar perceber como é que a coisa era feita. Depois daí até realmente começar a meter as mãos na massa foi uma mistura de ocasião e de vontade de pôr à prática os conhecimentos que estava a adquirir em contexto de experimentação – nunca pensei vir a fazer isto profissionalmente.
De onde surgiu a COLA?
A COLA começou como um coletivo. Quando viajei, lembro-me de ver tanto no Canadá como, mais tarde, na Républica Checa galerias nacionais e comecei a reparar que houve um grande desenvolvimento artístico em ambos os países a partir do momento em que alguns dos seus autores se juntaram a outros em coletivos. O facto de eles se terem juntado fez com que puxassem uns pelos outros e começassem a desenvolver mais e melhor trabalho cultural. Eu achei que poderia ser uma coisa interessante tentar replicar para a animação. Originalmente, constituímos um coletivo que não tinha nome e o único propósito era fazer workshops e masterclasses – formação e divulgação de animação. Mas depois fomos contactados para fazer o Cinegirasol, dos Azeitonas. Fomos contactados pelo Miguel Araújo e ele, na altura, disse que tinha um argumento do Nuno Markl, e como sou fã dele, automaticamente aceitei. Só depois desse videoclipe é que realmente constituímos a COLA (inicialmente, COL.A – coletivo de animação), em 2016. E começámos a trabalhar em projetos que nos eram propostos: publicidades, videoclipes institucionais. Só depois mais tarde, em 2018, é que constituímos a cooperativa, por uma questão de necessidade de posição jurídica. A COLA já teve várias vidas. Já saíram alguns membros, ficaram outros. Neste momento, dos membros fundadores, somos só dois. Mas somos muitos mais agora do que alguma vez fomos. Desde 2020 até agora, que temos estabilizado a nível de tipo de trabalhos que temos, projetos que temos em mãos, e felizmente temos tido bastante sucesso a nível de curtas-metragens e do alcance que elas têm estado a ter a nível global. Eu nunca quis ser produtor, sempre quis ser animador – eu nem queria ser realizador – só que não há uma oferta de trabalho muito grande em Portugal, e eu na altura não quis ir para fora, então a circunstância e a necessidade obrigaram-me a começar a produzir de forma a conseguir angariar projetos, a tentar meter equipas de pé e certificar-me que conseguia viver da animação.

Como funciona a COLA em termos de organização?
Nós somos uma cooperativa, ou seja, a empresa é de todos. Todos nós temos uma percentagem igual à da cooperativa, não há ninguém que tem mais do que os outros. Nós somos bastante horizontais. Temos, no entanto, dois patamares: temos os cooperantes, que são as pessoas que são convidadas e que fazem parte da cooperativa, que têm uma percentagem, e temos os colaboradores, que são pessoas que colaboram connosco mas não fazem parte da cooperativa. Muitas vezes convidamos os colaboradores a juntarem-se à cooperativa, mas não quer dizer que aconteça sempre. Depois, quando há um projeto, vemos quem está disponível e quem está disposto e tem vontade em participar nesse projeto e avançamos. Temos a noção de que, se houver algum problema, todos nós ajudamos e é assim que tem funcionado. Acho que para a COLA continuar a funcionar bem precisamos de duas coisas: vontade de trabalhar e respeito pelos outros. Se essas duas coisas estiverem presentes, vamos continuar a ter o sucesso que temos.
Como é produzir animação em Portugal?
É um desafio, mas é um desafio até um certo ponto. Nós em Portugal temos apoios consideráveis para animação autoral. Infelizmente, não temos grandes apoios para indústria. Eu gostaria que houvesse mais apoios para séries e para longas-metragens. O apoio para longas-metragens começou há relativamente pouco tempo e já está a dar frutos incríveis. Neste momento temos várias longas-metragens de animação que estão em distribuição e que vão ter agora estreia em sala de cinema, e estou muito curioso em ver o que isso vai dar. Mas é sempre um desafio. Nós temos muitos cursos neste momento que estão a ensinar jovens profissionais a entrar num mercado de trabalho que não existe – e essa é a minha maior preocupação. Isto porque, se há uns anos atrás não tínhamos força laboral para ter essa indústria, nós estamos a ter um excedente de pessoas que são formadas, mas que depois não adquirem experiência profissional a não ser que saiam do país porque não há empresas suficientes para abranger essas pessoas. Se, por um lado, a nível de animação autoral e projetos mais pequenos, nós conseguimos fazer coisas incríveis e ter um alcance internacional imenso, por outro, eu tenho um bocado receio do que vai acontecer no futuro e de que forma a malta que está a acabar agora os cursos vai ter oportunidade de, realmente, desenvolver melhor as aptidões que deveriam ter sendo profissionais de animação. Resumindo, é um desafio, mas está cada vez melhor e espero que continue a melhorar. Porque senão vai ser muito triste ver estas pessoas sem colocação.
Como surgiu a colaboração com o João Gonzalez em Ice Merchants?
Em 2019, eu estava no CINANIMA, e uma amiga, também da cooperativa, disse que tinha um amigo lá que eu era capaz de gostar de conhecer. E era o João, que estava lá com o filme “Nestor”, e eu tinha “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto”. O João ganhou o primeiro prémio, eu ganhei a menção honrosa ao lado da Regina Pessoa, que estava com o “Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias”. Começámos a falar e ele disse que tinha um projeto que gostaria de concorrer ao ICA, que ele ainda não sabia muito bem se poderia fazer ou não porque era um projeto de escola. Nos meses seguintes, entre novembro e janeiro, falámos várias vezes e concertámos agulhas. E, depois de uma reorganização da COLA, o João entrou, com a Ala Nunu também. Neste momento, o João é um cooperante e, portanto, é dono da cooperativa também. E na altura da pandemia estivémos a produzir o filme dele, juntamente com outros projetos que estávamos a fazer, e a coisa correu muito bem.

Como é trabalhar criativamente com o João Gonzalez?
O João, geralmente, começa com uma imagem mental e depois vai saltando entre o estirador e o piano. O processo dele é feito nestas duas vertentes ao mesmo tempo, uma complementa a outra, uma influencia a outra. Realmente é uma maneira muito atípica de se trabalhar. Mas depois acabamos por tentar encontrar um pipeline de produção que vá ao encontro daquilo que estamos habituados a fazer e que as pessoas com quem vamos trabalhar também estejam habituadas. Há um storyboard, apesar deste não ser super explícito. Há sempre espaço para descobrir coisas enquanto se cria, e ele também se dá a liberdade para isso. Nós tivemos uma equipa muito pequena no Ice Merchants, eram dois animadores, o João e a Ala Nunu, e eu estava a fazer a produção. Depois é um ping-pong constante de trabalho, em que o João faz os layouts, depois a Ala ou o João anima, dependendo de quem é o animador desse plano, e a coisa funciona de uma forma bastante orgânica. A Ala Nunu, sendo mais experiente e mais rápida, acabou por puxar o João para se tornar um melhor animador. Senão haveria uma discrepância muito grande entre os planos que ela animava e os que ele animava.
Que desafios houve na produção de Ice Merchants?
Acho que o maior desafio foi o COVID, não é? Mas a produção em si correu muito bem, não há razão de queixa. Tivemos alguma dificuldade em arranjar apoio internacional. Arranjámos algum em França, mas não foi muito – ou pelo menos não foi tanto quanto nós gostaríamos. Mas adaptámo-nos às condições que tínhamos e conseguimos fazer o melhor possível.
Como foi o percurso do Ice Merchants pelos festivais até aos Óscares?
O João desde o início tinha uma ideia muito concreta de quais seriam os melhores festivais para estrear o filme em cada país e quais seriam os qualificantes para os Óscares. E depois, dada a qualidade do filme, tivemos uma aceitação bastante grande. O facto de o filme ter estreado em Cannes e ter ganho o prémio da Semaine de la Critique também ajudou bastante a criar uma montra para o filme e para os programadores terem mais vontade de perceber de que filme se tratava, e depois gostar ou não. Antes de ser nomeado, o filme tinha 9 qualificações para os Óscares, que lemos há umas semanas atrás que é a curta-metragem de animação com mais qualificações para os Óscares de sempre. Foram 10 meses bastante incríveis em que quase diariamente tínhamos boas notícias que o filme tinha sido ou selecionado ou premiado. E até agora não tem parado. Mesmo com a nomeação para os Óscares e do prémio dos Annie, continuamos a ter o filme a entrar em festivais quase diariamente e a termos notícias de prémios e pessoas em querer saber mais sobre o filme, em mostrar o filme e em ver filme. Portanto, não podia ter corrido melhor. Nós planeámos para o melhor possível e superámos aquilo que planeámos, portanto estamos bastante contentes com isso.

O que é que a nomeação para os Óscares nos pode dizer sobre a situação do cinema de animação português em Portugal e no mundo?
A mais-valia da nomeação para os Óscares foi, sem sombra de dúvida, a montra que criou em relação ao Ice Merchants e em relação ao trabalho da COLA. Nós tentámos aproveitar sempre ao máximo, visto que estávamos nessa montra e tivemos a oportunidade de falar com muita gente. Tivemos sempre a oportunidade de elevar ao máximo a animação portuguesa. Nós acreditamos mesmo, tanto eu como o João, que a animação portuguesa, para além de estar numa belíssima situação neste momento, é das com mais qualidade que temos na Europa e no mundo. Nós temos tido um historial de realizadores com filmes de sucesso já de há muitos anos. O mais estranho é porque é que o Ice Merchants foi o primeiro filme nesta situação. Mas ainda há três anos a Regina Pessoa tinha ganho os Annie Awards. Agora esperemos que isto nos traga mais e melhor. Ainda estamos a tentar ao máximo fazer com que toda esta visibilidade seja algo que vai criar mais oportunidades.
Que mudanças esperas que esta nomeação traga para o cinema de animação em Portugal?
Acima de tudo, espero que o ICA consiga finalmente perceber que o cinema de animação em Portugal tem um alcance que é largamente superior a outos tipos de cinema. Não menosprezando os outros tipos de cinema, mas era bom nós começarmos a ter condições mais condignas. Termos mais e melhores apoios de forma a conseguirmos, não só assimilar a tal força laboral que está a sair das escolas neste momento, mas também criar melhores condições para os profissionais que já estão a trabalhar. Vamos ver agora se isso vai resultar em novas e melhores condições para os profissionais de cinema de animação em Portugal. Só o tempo e as pessoas responsáveis por essas decisões o dirão. Por exemplo, tanto “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto” como o “Ice Merchants” tiveram um financiamento de cerca de 90 mil euros por parte do ICA. É curioso, porque nós estivemos a falar com os outros nomeados em Los Angeles, e era impressionante a distinção a nível de orçamento entre alguns projetos que lá estavam. O “The Boy, the Mole, the Fox and the Horse”, o “Flying Sailor” e o “My Year of Dicks” tinham orçamentos estupidamente superiores ao nosso. Abaixo do nosso só havia um, que é o “An Ostrich Told Me the World is Fake and I Think I Believe It”, porque foi um filme de escola feito pelo Lachlan Pendragon sozinho. Sem contar com esse não houve nenhum projeto a concurso nos Óscares que tivesse um orçamento tão baixo quanto o nosso. Mas é o que é. Sabemos a realidade que temos. Sabemos as linhas com as quais nos cosemos e tentamos fazer o melhor que conseguimos com o que temos.

Que futuros projetos tem a COLA?
Temos muitos projetos. Neste momento estamos em diferentes fases de produção de 5 ou 6 curtas-metragens. Estamos em desenvolvimento de uma longa-metragem. Estamos com mais duas longas em vista a nível de co-produção. Estamos com projetos de desenvolvimento de curtas e de outro tipo de formatos. E este ano vamos concorrer ao ICA com mais uma batelada de novos autores e projetos bastante interessantes. Estamos com muita vontade de perceber o que o futuro nos vai trazer. Neste momento já estamos numa situação bastante boa. Resta agora perceber se o que tem vindo a acontecer nos últimos anos vai continuar. Mas, com esta situação dos Annie e dos Óscares, acreditamos que os próximos anos vão ser interessantes.
Para finalizar, o Guillermo del Toro fez um comentário em relação à animação em que ele afirma que durante muito tempo a animação foi segregada para um certo tipo de audiência mais infantil e que a animação não é um género, é cinema. Qual é a tua opinião sobre esta afirmação?
É difícil não concordar com uma pessoa como o Guillermo del Toro. Eu tive a oportunidade de o ver a falar duas ou três vezes nas últimas semanas e o que se percebe é que ele tem um conhecimento e um carinho pelo cinema gigante, seja este de animação ou imagem real. São poucas as pessoas que têm tanto amor por esta forma de arte como ele. E ele sabe do que fala. É uma pessoa extremamente inteligente e é uma pessoa que comunica muito bem o que ele pensa. Eu concordo plenamente com ele. A animação não é um género de cinema. Não se mete ao lado de terror, comédia, drama. Animação é um meio, é uma técnica, é cinema. Acho que nem há discussão em relação a isso. É um facto. Mas acredito piamente que é algo que muitas pessoas não se aperceberam ainda. E para além disso, lutamos com o facto de a maior parte das pessoas pensarem que a animação é para crianças, o que não é obrigatoriamente verdade. Pode ser, mas também pode não ser. Acho que são essas coisas que ajudam a criar um conhecimento e cultura. Mesmo a nível de curtas-metragens, que é o melhor que fazemos em Portugal, porque ainda não tivemos muita oportunidade de fazer mais do que isso, era bom começar a haver mais exibições antológicas de curtas-metragens nas salas de cinema, e acima de tudo era bom ver as pessoas a irem ver esses filmes.

