Num verão sozinho em Nova York, enquanto trabalha numa galeria, Adnan perde-se no tédio abrasador, procurando o corpo de homens nas sombras dos parques da cidade. Depois de um encontro com Yariel, um entregador de comida, Adnan mergulha nas suas fantasias e no seu passado erótico. Envolvendo-nos numa atmosfera de erotismo latente, Lucio Castro transporta-nos para uma nova aventura por uma solidão fantasiosa, desta vez tanto na selva de betão da cidade de Nova York, como nas florestas misteriosas do norte do estado. O que se revela é uma reflexão profunda sobre uma descoberta das possibilidades do erotismo no meio de um deserto de solidão e tédio.
Um dos aspetos mais brilhantes de Drunken Noodles é a forma como parte de cenários que nos fazem lembrar filmes pornográficos – um encontro num parque, um homem que convida outro a entrar em sua casa para remendar uma roda de bicicleta, um fauno no meio da floresta – para construir o inquietante sentimento de solidão que permeia as imagens deste filme e, ao mesmo tempo, uma possibilidade de escape a este sentimento. Lucio Castro joga constantemente com a dualidade presente neste filme, entre o tédio e a fantasia, entre um aprisionamento e uma possibilidade de libertação, e os encontros sexuais que vamos observando refletem isso. O filme, através das suas imagens paradas como pinturas, arde com um lume brando, ansiando por algo, flamejando nestes momentos de erotismo e contacto entre homens.
Um aspeto interessante em que Castro se foca é numa escassez de diálogo, fazendo o espectador focar-se nas imagens que ele constrói, procurando algo nelas. Ao mesmo tempo, reflete a dificuldade de comunicação entre homens, cuja dificuldade de manifestar os seus sentimentos tanto os restringe como lhes permite explorar outras formas de comunicação entre corpos, talvez explorar outras possibilidades do erotismo fora do normativo. Desta forma, Drunken Noodles é construído de uma forma profundamente poética, utilizando uma estrutura narrativa lacónica que nos convida a construir a nossa própria narrativa e os nossos próprios significados.
Desta forma, Drunken Noodles surpreende-nos pela forma onírica e libertadora com que termina a sua jornada. É um filme que nos embala e nos confronta de forma poética, sendo como um sonho quebradiço, apresentando uma proposta profundamente gay de erotismo e de relação entre corpos, existindo nas sombras dos locais de cruising de forma irreverente, possuindo em si tanto a prisão da solidão como também a chave da libertação.
Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.
