Crítica: Salomé / Cinco estrelas por Jasmim Bettencourt

Salomé – Uma verdadeira utopia queer

5 estrelas Críticas Queer Lisboa

Voltando à sua terra natal de Recife, Cecília, uma modelo de grande sucesso cuja carreira foi construída contra a vontade da sua mãe, volta a explorar as suas ligações com a sua família, as suas amizades, e a sua cidade. Apaixonando-se por um rapaz vizinho, uma substância misteriosa estabelece-se como a base deste amor intoxicante. Lentamente, Cecília encontra-se num enredo muito mais complexo do que se poderia esperar. Construindo um mundo loucamente queer, André Antônio constrói um verdadeiro cinema de fantasia que mistura uma míriade de géneros em si. Buscando influências desde os melodramas de Sirk ao cinema B dos anos 50, com texto bíblico à mistura, Salomé transforma-se numa poção visual de uma estética irreverentemente queer e camp, em que a norma heterossexual parece nem sequer ser considerada.

As imagens deste filme parecem sempre carregar uma certa alucinação, com cores exageradas, luzes que afogam os cenários, e interpretações que têm algo de inquietante nelas. Jogando com estruturas narrativas do melodrama, do noir, e do sci-fi, Salomé constantemente desconstrói-se e transforma-se, deslumbrando-nos com uma fantasia que nos confunde sobre a sua verdadeira natureza.

O que é mais refrescante neste filme é a sua celebração da sua fantasia e êxtase queer, do corpo não-normativo, que é centrado na imagem e lhe é permitido explorar uma multiplicidade de sensações. Não só estruturas narrativas são desconstruidas como também estruturas de expressão de género e sexualidade, sendo extremamente refrescante ver a manifestação de sexualidade e prazer trans ser tão orgulhosamente centrada neste filme. Isto é assoberbado pelo talento trans que se encontra no centro desta narrativa, com Aura de Nascimento e Renata Carvalho seduzindo-nos com as suas presenças num combate de personalidades, com a intensidade da primeira e a leveza da segunda.

O encantador deste filme é que parece existir no seu próprio plano, numa certa utopia queer, usando isso para nos fazer olhar para a nossa realidade. À maneira de um verdadeiro melodrama, emoções intensas possuem em si o potencial de encontrar uma realidade emocional que revela as estruturas opressivas do mundo. Salomé, desta forma, entra num choque direto com uma realidade normativa e patriarcal, ao mesmo tempo que nos revela possibilidades de prazer e felicidade.

André Antônio apresenta-nos uma fantasia complexa que se vai transformando diante de nós. Salomé é tanto uma obra cinematográfica utópica em que a não-normatividade e uma sensibilidade queer são centradas, como é uma obra irreverente na sua estética. É um filme que desafia ao mesmo tempo que dá prazer, explorando os seus conflitos internos. E, acima de tudo, é uma celebração sensorial que nos apresenta um mundo liberto de amarras normativas.

Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.

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