A Incrível Anatomia do Falhanço

A Incrível Anatomia do Falhanço

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Costumo dizer (pensei nisso agora, mas soou bem) que a vida é muito semelhante a passar a ferro, sempre que eliminamos um vinco, inevitavelmente, outro vem para ocupar o seu lugar. Não sei, talvez eu seja é mau a passar a ferro. O que posso afirmar com certeza é que esta frase é uma romantização, uma manipulação dos factos com o intuito de apresentar um problema ou uma situação de forma mais suave ou conveniente para mim. No fundo, isto é a arte. Qualquer filme, música, pintura ou texto é um micromundo criado segundo os princípios do autor, com a finalidade de expandir e representar a sua conceção da realidade, seja esta «accurate» ou não. Mas não são só os artistas que são vítimas deste processo. Nós, meros mortais, também. Considero que o maior motor, ou ponto de partida, da romantização é o falhanço.

Antes de mais, quero evitar soar como um filósofo pretensioso. O falhanço tem, sem dúvida, um caráter objetivo. Uma oportunidade perdida no futebol, deixar passar um prazo, não obter o resultado pretendido num teste… Todavia, não sei se falo só por mim quando afirmo que, por vezes, se calhar inconscientemente, nos impomos o falhanço, responsabilizamo-nos sem sequer termos tido a oportunidade de falhar, ou melhor, sem termos o direito ou a legitimidade para tal. É fácil e conveniente considerar algo como um falhanço, na medida em que falhar envolve uma chance, uma possibilidade, uma proximidade de algo ou de algum desejo. É uma palmadinha nas costas, um ópio que torna nostálgico o passado e esperançoso o futuro. «Por pouco que não foi» ou «daqui a pouco vai ser». A beleza disto é que nos podemos sentir bem ou, no mínimo, conformados, sem, na realidade, haver algum tipo de fundamento para tal. No fundo, um decadentismo útil. Se perpetuarmos esta abordagem, vivemos num mundo à parte, talhamos a nossa própria realidade. É parecido com a sensação de ouvir música nos fones: sentimo-nos como nos queremos sentir, temos o controlo. Enfim, é o nosso mundo, o mundo ideal…

Aproveito para estabelecer uma ponte com um dos maiores filósofos do século XIX, Nietzsche. (Recentemente, li o livro Ecce Homo e, naturalmente, tinha de o exibir. Afinal, agora já sou um homem de cultura.) Ora, Nietzsche é provavelmente o autor com quem mais discordei. Contudo, dizia, e com razão: «A ideologia é a falsidade perante a necessidade». Nietzsche abomina todo o ideal que vá diretamente contra a realidade (mundo físico), contra a natureza humana. O foco no que não existe e não nos rodeia afasta o ser humano do seu máximo potencial. Ou seja, esta necessidade de preencher um vazio, que naturalmente todos sentimos, através de falhanços romantizados, até pode aumentar os nossos níveis de dopamina, mas revela-se escassa na produção de efeitos reais. Daí aparecerem sempre novos vincos. O problema da ilusão é que não tem espaço nem tempo, já nós somos finitos.

Não pretendo tornar este texto num cliché de carpe diem, mas estou a escrevê-lo no dia em que morreu um homem de trinta anos após uma colisão durante um jogo de futebol, desporto que eu, tal como várias crianças e jovens ao redor do mundo, pratico com tanta frequência. Isto para dizer que a vida não é garantida e que as coisas não acontecem só aos outros. Portanto, enquanto aqui estamos, mais vale viver no momento e não no que poderia ter sido ou no que ainda vai ser. Eu percebo, a realidade consegue ser inglória, frustrante (aquela inércia desesperante) e, sobretudo, insuficiente. Por vezes, o único mecanismo de defesa é este decadentismo útil, uma espécie de self-pity. Recorrer ao artificial para corrigir os lapsos do real. Mas isso é ver o prisma do lado errado. Esta aceitação exagerada do trágico faz lembrar a segunda geração do Romantismo em Portugal: o conforto no sofrimento, a lamentação gratuita (estou a espalhar migalhas de cultura neste texto).

A solução? Não sei. Mas creio que o mestre Oogway, em Kung Fu Panda, nos encaminha na direção certa: «You are too concerned about what was and what will be. There is a saying: yesterday is history, tomorrow is a mystery, but today is a gift. That is why it is called the present». Como é que interpreto isto? A realidade de que tentamos fugir é aquela que também nos dá as coisas que nos são mais queridas. Portanto, em vez de a abandonarmos, que tal encará-la, produzir algo, material ou não, deixar a nossa marca ou impacto. O cúmulo do declínio da sociedade dá-se quando a população perde o interesse no aqui e agora e vive para sobreviver ao dia de amanhã. Está nas nossas mãos. Em linguagem moderna, seria algo como «Blame the player, not the game». Fazendo o quê, exatamente? Também não sei, mas, quem sabe, talvez este texto seja um começo.

Deste modo, portanto, em suma, concluindo… Não sei, escolham vocês o modificador de frase. Nunca gostei deles, considero que tornam o discurso menos orgânico. O importante a reter é que não vale a pena apoiarmo-nos na construção artificial de um falhanço. Quantos heróis românticos caídos em desgraça não andam por aí? A mensagem otimista? A bola, felizmente, ainda está do nosso lado. Se isto se tratasse de um filme, agora seria a cena a meio do segundo ato em que finalmente o protagonista toma as rédeas da sua vida, com uma música entusiasmante de fundo. Espero que isto ajude a eliminar os tais vincos e, já agora, que tenham achado tanta graça à escolha da imagem do artigo quanto eu.

Nota: Neste texto faço referência à trágica morte do futebolista Jesús de Miguel. Rezo por ele e pela sua família.

Texto escrito por Francisco Empis.

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