Numa Espanha profunda e rural desaparece uma criança e com ela vai-se a moral dos pais que sofrem com a perda. Numa tentativa de recompor a família, olhando-o como segunda oportunidade, raptam o filho de um casal de turistas que se dirigia a uma terra nas proximidades.
A trama é densa e inquietante, sobretudo pelos rumos que o filme vai levando que, sem serem óbvios, são orgânicos e carregados de signficado – o desespero de um pai que se sente culpado pelo desaparecimento de um filho, a resiliência de uma mãe que joga sempre ao ataque e os reflexos de um mundo injusto que os desorienta e abandona num estado ora catatónico, ora reativo.
Poderá considerar-se que o rastilho de The Devil Within (Caminando con el diablo) tem parecenças com as de The Furious (exibido no dia anterior e também com texto publicado nesta página), embora os caminhos sejam quase espelho um do outro. Há uma cadência mais demorada e dedicada ao suspense no filme espanhol-uruguaio, um compasso lento que deixa dúvidas sobre passos seguintes e relação com perdas. O trauma que sofre o casal do início deixa um rasto cuja imagem se traduz num díptico de caminhos a atravessar e culmina em passos arriscados e decisões precipitadas.
Em The Devil Within sente-se o rasto do suor na testa e a panela de pressão de um enredo que cavalga por vias estreitas que vão afundando quem nelas pisa. Críptico? Talvez, mas vale muito a pena visitar este mundo quase-western no seu bailado de tensões e desesperos.
Texto escrito por Manuel Seatra.

