A Odisseia existe como texto escrito há quase três milénios, como história há ainda mais tempo. Neste texto basilar da literatura ocidental que, como tudo, é um produto do seu tempo, é, no entanto, possível encontrar lições para os nossos tempos. Christopher Nolan compreende de forma profunda a natureza moral da epopeia como texto e, de uma forma espetacular, traduz este texto tão rico e antigo para os nossos tempos habitados por salvadores auto-proclamados e homens que odeiam mulheres. Com a mão e o olhar de um necromante, fantasmas de outra época flutuam no grande ecrã para nos trazer velhas lições atualizadas para estes novos tempos de declínio de uma ordem mundial, dando-nos esperança em tempos de divisão e ódio.
Usando a estrutura não-linear da epopeia para sua vantagem, somos envolvidos nesta história tão familiar e fantástica. O quão fiel à imagem histórica o filme é torna-se completamente irrelevante (alguma vez tivemos essa preocupação noutras adaptações homéricas para o cinema?) quando o espectador é inundado por imagens sublimes e uma banda sonora contagiante invade o coração. Isso tudo se torna irrelevante quando se tem o ouvido disponível para o que está a querer ser dito nas diferentes lições de moral que são os diversos episódios desta viagem mítica. Porque, no fim de contas, uma epopeia não passa de uma série de lições de moral, e é isso que nos é apresentado de forma honesta e despretensiosa. Não é escondido que isto é um olhar contemporâneo (e americano) sobre esta velha história, e é precisamente isso que torna este filme tão frutífero e envolvente. A partir da Guerra de Tróia podemos pensar no imperialismo contemporâneo, a partir da viagem de Odisseu podemos pensar no trauma pós-guerra, a partir da história de Penélope podemos pensar em questões de género contemporâneas, a partir do final da Idade do Bronze podemos pensar na crise da ordem mundial capitalista. Nolan convida-nos a olhar sobre todas estas questões e sobre o potencial de atualidade que esta epopeia ainda detém, sobre os tesouros que podem ser ainda encontrados aqui.
Desta forma, A Odisseia torna-se em algo mais do que um simples espetáculo cinematográfico. É um espelho perfeito deste momento histórico, lidando com as suas diversas facetas a partir de um texto milenar, atualizando-o e aproximando-o à nossa era, ao mesmo tempo que realçando o que melhor se encontra nele e nos possuindo com emoção. Este filme terá os seus detratores, desde os puristas aos estetas, mas, verdadeiramente, este é o filme que precisávamos nestes tempos de fascismo e desesperança. É este o filme que nos traz as lições de moral que precisávamos neste momento histórico. Nolan, como o grande moralista dos nossos tempos, encontra-se no seu elemento aqui, e, assim, torna-se esta obra num triunfo monumental da sétima arte. É esta história da antiguidade que traz o espetáculo épico que precisávamos na nossa era hiper-tecnológica.
Classificação: 5 em 5 estrelas. Texto escrito por Jasmim Bettencourt.
