Crítica: Primetime / Quatro estrelas por Zé Marinha

Chris Hansen – vilão ou justiceiro

4 estrelas Críticas

Esta review contém spoilers a partir de um certo ponto que será devidamente indicado.

Lançado a dia 8 de outubro nos cinemas portugueses, Primetime protagonizado por uma presença recorrente no grande ecrã este ano – Robert Pattinson. Recebeu duras críticas de Chris Hansen, o retratado nesta peça de ficção misturada com a realidade. Será que as
críticas tecidas por Hansen são válidas?

Primetime é um thriller realizado por Lance Oppenheim que nos leva de volta aos anos 2000 na altura em que o programa “To catch a predator” da Dateline NBC era uma sensação nos estados-unidos. No entanto, o tanto que contém de verdades também contém de ficção exagerada.

Chris Hansen, o homem retratado por Robert Pattinson na longa-metragem, protagonizou um acontecimento caricato antes do filme estrear: “Os advogados da A24 queriam que eu abrisse mão dos meus direitos sobre meu nome, imagem e marca, basicamente, bem como de quaisquer eventuais direitos legais que pudessem surgir a partir do filme” – Chris Hansen para a FOX News.

A partir deste incidente, Hansen não teve acesso a um visionamento antecipado do filme e teve de esperar para o ver com o público geral. Assim que o viu, publicou um vídeo no seu canal do youtube “Have a seat with Chris Hansen” em que durante 20 minutos criticou duramente o filme e a personificação da sua pessoa.

“Foi algo tão bizarro, tão desconectado da realidade […] Obviamente, não sou imparcial, já que a personagem sou eu, mas aquilo estava tão distante da realidade — ou de qualquer coisa que eu tenha vivenciado, tanto na época quanto agora, ao realizar as investigações — que não sei bem qual era o objetivo daquilo.” – Chris Hansen em “Have a seat with Chris Hansen”.

Considero que era de esperar uma interpretação bizarra e surreal vinda de Pattinson. No entanto, após ver o filme, talvez não ache que esta seja tão desconectada da realidade quanto pensamos ser.

O filme começa (material divulgado online pela A24 em trailers e clips) com um episódio clássico do programa – atraem um predador para uma casa totalmente equipada com câmaras e com a polícia à espera dele. No entanto, depois de termos uma visão do público, temos acesso a algo que não é costume ver. Chris Hansen, simplesmente a absorver o que acabou de acontecer, temos um som alto e desconfortável do que parecem válvulas e a produtora a ver como o mesmo estava. Algo tão simples mas tão aterrorizador ao mesmo tempo. Este tipo de pressão acompanha-nos ao longo do filme todo e a pergunta paira sobre a nossa cabeça – “Será que ele devia fazer isto?”.

Será que o Chris Hansen tem uma índole e uma moral tão superior a estas pessoas todas? Será que este apresentador de televisão não tem um teto de vidro? Será que ele tem a superioridade moral para humilhar estas pessoas em televisão nacional? Será que isto é sequer legal?

Eu escrevi estas perguntas de uma maneira muito específica. Cada vez mais retirando o envolvimento do Chris Hansen. Chega a um ponto que isto não é sobre o Chris Hansen – isto é sobre um movimento que chegou longe demais e que ultrapassa todos os limites possíveis.

Para contexto recomendo ver o documentário Predators que aborda o assunto de uma maneira “semi-objetiva”. Porque é que digo isto? David Osit – escritor, realizador e editor deste documentário, constata diversas vezes ao longo do documentário que não é um orador totalmente imparcial visto que o mesmo é um sobrevivente de violação e o mesmo via o programa de Hansen para tentar saber “o porquê deles fazerem isto?”.

Não duvido que nas nossas horas incontáveis de Doom Scroll nos tenham aparecido justiceiros a caçar pedófilos e a marcar encontros com eles em lugares públicos para os expor na internet. No entanto, isso não só é um crime (perdendo toda a vantagem sobre a lei que os mesmos tinham), mas como é totalmente maligno.

Quero deixar um disclaimer que não estou a defender de qualquer maneira estes pedófilos e acho que deveriam apodrecer na cadeia. No entanto, e quando isto é levado longe demais? No documentário e no filme é abordado o mesmo caso – um suícidio de um dos predadores.

Aviso de Spoilers

No filme, Bill Conradt é chamado de “Big Fish” por Hansen diversas vezes, fazendo de tudo para o apanhar pela pressão da Network, visto que o programa ia estar no primetime, isto é, no horário em que mais pessoas estariam a ver televisão em suas casas. O terceiro ato todo envolve esta obsessão de Hansen pelo peixe grande e como este pode salvar o programa, sendo quase como uma caça ao tesouro pelo maior predador alguma vez visto no programa.

Este tem o desfecho que conhecemos, o suícidio de Bill Conradt e o fim do programa pouco tempo depois – Chris Hansen não demonstra remorsos pelo ocorrido e afirma apenas ter documentado a investigação. No entanto, como vemos no documentário, “Decoy Dan” cujo nome real é Dan Schrack diz que o acontecimento “deixou uma marca na alma” e que nem consegue ouvir a chamada que fez a Bill nesse dia.

Não sou ninguém para fazer juízos de valor sobre o assunto. Sou simplesmente um miúdo que gosta de filmes, então este definitivamente não é o foco da review. Simplesmente acho necessário dar consciência ao público que mesmo que saibam que o Chris não é nenhum anjo com uma moral acima de toda gente (mesmo pelo caso que teve) quero apontar para um caso.

Hunter Trepanier – jovem de 18 anos que teve a vida arruinada por Hansen. Hunter ia encontrar-se com um jovem de 15 anos, só que em vez disso deparou-se com Hansen. Não me compete a mim dizer se era certo ou errado o rapaz fazer o que fez, mas quero relembrar que é um rapaz do décimo segundo ano e outro do décimo.

Acho importante dar esta introdução pois isto é um tópico muito sensível em que toda a informação é pouca. Com isto, Chris Hansen é um vilão ou um justiceiro? Eu acho que é impossível atribuirmos um rótulo a esta personalidade por conta do número de camadas inerentes a esta discussão. São vinte anos de polémicas e acontecimentos que tornam esta discussão altamente subjetiva e que torna a interpretação que querem fazer correta.

Com isto dito vamos finalmente entrar neste filme.

Nunca tinha visto nada do Lance Oppenheim e devo dizer que fiquei surpreendido pela positiva. Numa aspect ratio de 4:3 (AKA “quadrado”) para nos ambientar na época (anos 2000) Primetime é extremamente experimental, usa muitas técnicas diferentes para nos dar perspectivas e formas diferentes de vermos as peripécias de Hansen e companhia.

Esse sendo o meu ponto forte do filme, a cinematografia aqui estava impecável. Tudo o que envolvia trabalho de câmara estava impecável e mal posso esperar para ver You Can See Everything também realizado pelo Lance Oppenheim (com o Nathan Fielder) e o cinematógrafo David Bolen.

Destaco também um filme muito levado pelas performances destes atores incríveis, o Robert Pattinson entrega mais uma performance genial em que mostra verdadeiramente a transformação que consegue fazer para um papel. Mas, não podemos deixar de falar de todo o cast. Dou o meu destaque ao Skyler Gisondo que capturou a energia do verdadeiro “decoy Dan” de uma maneira incrível.

Tudo isto acompanhado de uma score muito própria pelo Ari Balouzian.

Dito isto, considero que todos os departamentos foram extremamente competentes nas suas áreas, tirando o escritor, Ajon Singh.

Ajon Singh estreou a sua carreira como escritor a escrever o guião para Primetime e vai seguir com o filme do Spider-punk que me deixa seriamente preocupado por um personagem tão incrível como é o aranhiço. Singh escolheu um caminho ousado para este guião – tornando algo que já é perturbador para algo aterrorizante, não só pela seriedade do que se está a falar, mas também pelos riscos envolvidos. Hansen encontra-se no pico da sua carreira e tem tudo a perder por um caso e o filme capta essa tensão e esta dualidade de justiceiro e vilão do protagonista perfeitamente. No entanto, sinto que isso se deve muito a um esforço do realizador e não tanto de uma boa escrita vinda de Singh.

Tripartindo isto em atos posso dizer que adorei o primeiro e o terceiro ato. Sinto que o escritor tinha um plano de como queria começar e acabar a história. No entanto, não a conseguiu desenvolver tão bem como a queria e isto acaba por danificar um bocado a experiência como um todo pois chego a ficar aborrecido a meio do filme devido à explosão de color grading e esta história que simplesmente não me está a cativar. O Chris Hansen é alguém com uma vida interessantíssima e sinto que conseguiram pegar nos pontos que almejavam. No entanto, em pontos que talvez tivessem de ser desenvolvidos esses são cortados pela ambição do mesmo – talvez alguns chamem isto de boa escrita por estarmos a acompanhar isto da visão do Chris. No entanto, temos de nos lembrar que isto é o mundo real e não o mundo dentro da cabeça dele e há simplesmente muita coisa que fica em aberto que não pode ser desculpada por dizer “isto aconteceu na vida real então sabes o que aconteceu”. Temos uma chamada da mulher de Hansen a dizer que soube a partir de um jornalista do seu caso e a conclusão com o suicídio do “Big fish”, presumidamente sabemos o que acontece – o programa acaba. No entanto, não foi imediato e isso era algo que eu gostaria de ver – como é que a Network reage a um suícidio de uma figura pública por causa da exploração por entretenimento deles.

Para um filme de 110 minutos, Primetime abre muitas tramas e infelizmente só fecha uma delas – algo que um filme desta duração deveria fazer. Tinha altíssimas expectativas e felizmente maioritariamente destas expectativas foram cumpridas, só gostava que tivessem tido mais carinho na escrita desta peça e abordassem os temas que realmente importam na polémica de “To catch a predator”.

Classificação: 4 em 5 estrelas. Texto escrito por Zé Marinha.

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