Polyester - Um filme que se cheira

Polyester – Um filme que se cheira

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John Waters é o génio celebrado nesta Vigésima Edição do MotelX. No ano em que o cineasta e artista visual completa oitenta anos, há várias obras a rodar no Cinema São Jorge. Vale a pena espreitar o Programa e orientar a agenda para descobrir ou recordar os trabalhos do dono do bigode-lápis mais famoso de Baltimore e arredores.

A sátira suburbana Polyester (John Waters, 1981) reúne o que deve um filme de humor estilizado que explora ligações entre o kitsch e o grotesco. Parodia o estilo de vida suburbano americano e os valores associados a um ideal de família perfeita. Ao mesmo tempo que exagera esses comportamentos até ao absurdo, expõe a hipocrisia que existe por detrás deles, sobretudo através do contraste entre a imagem a que as personagens atentam em público e o que realmente fazem e desejam em privado.

O estilo louco e deliberadamente absurdo do filme está perfeitamente alinhado com os seus temas: a comédia estrambólica permite desmontar a aparência de normalidade e respeitabilidade da vida suburbana, revelando-lhe contradições, repressões e desejos escondidos… O exagero dá visibilidade ao que a sociedade tenta esconder.

Riu-se muito na Sala 2 do Cinema São Jorge – espetadores munidos de uma folha de raspadinha Odorama (uma panóplia de cheiros contidos numa ficha com dez espaços para raspar e cheirar). A cada número a piscar no ecrã, em alturas do filme que chamavam o faro apurado da protagonista (Francine Fishpaw interpretada por Divine), ouviam-se chaves, moedas ou unhas em raspagem frenética dos “scratch ‘n’ sniff“. Acrescentarem-se sentidos ao visual e auditivo (o olfativo e o tátil) eleva a dimensão sensorial do Cinema a proporcionar momentos comunitários com gimmicks que unem o público num só universo.

Texto escrito por Manuel Seatra.

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